FONTE: Jolivaldo Freitas (TRIBUNA DA BAHIA).
São João é uma das minhas festas favoristas. Sou levado pelas memórias de um luar do sertão que nunca vi e apenas fanatasio. Me deixo envolver por canções que falam do terreiro, da roça e do rincão, sem jamais ter colocado os pés no chão e muito menos cortado madeira seca para fazer fogueira ou mesmo decorar o arraial. Convidar a filha do seu Mané para dançar o xote o xaxado e o baião sempre foram as minhas vontades, mas nunca conheci um Mané lá do interior. Mas, mesmo assim, ajo e vivencio a festa como se tivesse nascido no mais recôndito grotão.
Nesta época provo de todo tipo de licor: genipapo, pitanga, banana, maracujá, passas, café, chocolate ou o improvável licor de leite que é uma delícia. Mas, meu favorito mesmo é o genipapo. Lembro que fiquei bêbado de doer apenas uma vez na vida, aos 15 anos de idade, quando num certo São João de irrepreensível memória, eu e meu amigo Marçal Miranda compramos, cada um, uma garrafa de licor de genipapo numa casa que era famosa no bairro da Boa Viagem, por fazer tonéis de licor para vender a todo o povo da península Itapagipana, nos municiamos de canudinhos, uma bacia de amendoim cozido, pegamos o lotação e ficamos bebendo e comendo sentados num banco do Campo Grande.
Foi a única e última coisa que lembramos com exatidão. O resto os amigos nos contaram. Voltamos para a Boa Viagem e já chegamos jogando bombas numa fogueira cercada por um montão de gente. Foi brasa e cinzas para tudo quanto foi lado. De lá seguimos para a casa de um amigo e teimamos em chupar um picolé de morango passado na manteiga. Como se não bastasse enfiamos a mão numa travessa de canjica e foi a gota d´água e nos levaram para casa.
Tenho uma vaga lembrança, até hoje, de ter visto a janela do quarto girar. Quando o dia amanheceu, cheio de vergonha, a cama e o chão do quarto tomados pelas gofadas de vômito formado por tantas delícias, fui recebido por meu pai que me mandou limpar tudo. Limpar direito e se preparar, em seguida, para levar uma surra. Doeu mais moralmente do que na pele.
Levei dezenas de anos para ter coragem de voltar a provar licor de genipapo. Nunca mais fiquei bêbado. Mas, este ano decidi viajar para a Chapada Diamantina. Levei três horas entre Salvador e Feira de Santana, um trajeto que normalmente é feito em pouco mais de uma hora. Olha que saí às seis da manhã. Peguei um imenso engarrafamento. Tudo por culpa dos buracos na BR 324. Eram tantos buracos e tanto desviar e balançar que fiquei tonto. Veio a mesma sensação do porre do genipapo. Mas, desta vez sem prazer. O jeito foi relaxar e pé na estrada.









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